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Eleito presidente da Alerj, André Ceciliano tem assessora citada em relatório do Coaf
  • Eleito presidente da Alerj, André Ceciliano tem assessora citada em relatório do Coaf

Quando perdeu a disputa pela prefeitura de Japeri, um dos 10 municípios mais pobres entre os quase cem do Estado do Rio de Janeiro por apenas 611 votos, em 2016, o deputado estadual André Ceciliano (PT) pode ter atribuído a derrota a um azar. Mas a sorte viraria em menos de dois anos, ao ser entronado presidente da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj), no último sábado (2).

A eleição de André Ceciliano é o último capítulo de uma série de infortúnios de aliados e adversários, que vão de doenças a prisões na Lava Jato, passando pelo já famoso relatório do Conselho de Controle de Atividade Financeira (Coaf).

Na prática, Ceciliano já comandava a Casa com um mandato-tampão desde 2017 justamente por conta de algumas dessas coincidências que lhe abriram caminho. Em abril daquele ano, o então presidente Jorge Picciani (MDB) se licenciou por doença e só voltou nos raros momentos em que melhorou.

André, que era o segundo vice-presidente, acabou assumindo a cadeira mais importante do parlamento por outro acaso: o primeiro-vice também estava em repouso. Wagner Montes (PDT), que morreu no último dia 26, tratava de um problema nas costas, do qual não conseguiria se recuperar.

Deputado desde 1998, o petista assumia interinamente a presidência quase 20 anos após tomar posse pela primeira vez. Neste tempo, chegou a ser eleito prefeito de Paracambi em 2000 e em 2004. Desde então, vinha se candidatando à prefeitura da vizinha Japeri, sem obter êxito.

Na última delas, em 2016, perdeu a disputa por pouco mais de 600 votos. Naquele ano, a cidade tinha apenas 6,3% da população empregada, segundo dados do IBGE. É a pior porcentagem entre as 92 cidades fluminenses. Em 2017, o município teve receitas de R$ 203 milhões. Isso significa um bilhão a menos do que as despesas previstas para 2019 na Alerj.


A nova queda de Picciani

Apadrinhado por Jorge Picciani, Ceciliano é apontado nos corredores da Casa, ironicamente, como "um petista do MDB". Isso porque integrou as bases aliadas dos ex-governadores presos Luiz Fernando Pezão (MDB) e Sérgio Cabral (MDB). Ele chegou a votar contra orientação do Partido dos Trabalhadores e foi afastado da sigla, mas retornou.

Além da saúde, Picciani vinha sendo fragilizado pela Lava Jato. Foi alvo de condução coercitiva e, mesmo citado em algumas delações, sonhava com a reeleição quando foi preso na Operação Cadeia Velha, em agosto do ano passado. Ele é acusado de corrupção passiva, organização criminosa e lavagem de dinheiro.

Com Wagner Montes ainda licenciado, Ceciliano ganhava cada vez mais fôlego na presidência.

As surpresas das eleições de 2018

Ainda interino, Ceciliano se embrenhou nas eleições de 2018 já sonhando com a presidência. O enfrentamento à crise vivida pelo Estado, já à frente da Casa, alimentava a esperança. Com seu padrinho afastado, o caminho estava aberto para entrar na briga. O problema era outro: como superar o nome de André Corrêa (DEM), favorito ao cargo.

No pleito pelo governo do Estado, Corrêa acreditava, o favorito era o seu correligionário Eduardo Paes (DEM). Com isso, a vitória de um aliado no Legislativo viria bem a calhar. Em conversa com o G1 em setembro, minutos antes do último debate entre candidatos ao governo, Corrêa admitiu que as conversas tinham começado.

"Se o cavalo passar encilhado, eu monto", disse, referindo-se à candidatura para a presidência da Casa.

— Deputado André Corrêa (DEM), às vésperas da eleição e antes de ser preso

Deputados ouvidos pelo G1 naquela época confirmavam que as movimentações para a candidatura da presidência da Alerj já estavam adiantadas — embora, oficialmente, os deputados ainda não tivessem sequer sido reeleitos.

Nem mesmo a surpreendente eleição de Wilson Witzel (PSC) para o governo mudou o panorama. Corrêa passou a flertar com o novo grupo político que comandaria o Estado, mudando o discurso. Em entrevistas, disse que tiraria a Comissão de Direitos Humanos "das mãos do PSOL" — presidida por Marcelo Freixo (PSOL) desde a época da CPI das Milícias.

O discurso empolgou o PSL, partido do presidente da República, Jair Bolsonaro. A sigla, com o maior número de integrantes na Casa, aceitava perder o cargo mais importante — a presidência — e conseguir comissões importantes como a de Comissão e Justiça e Orçamento.

O partido também temia que um novato assumisse a presidência da Alerj e paralisasse as votações, como disse ao G1 um dos secretários de Witzel. Os maiores vencedores da eleição de 2018 também passaram a apostar em Corrêa.

Mas novamente a Lava Jato apareceu no caminho de um adversário de Ceciliano. Em novembro, quando André Corrêa parecia ganhar fôlego para assumir a Presidência da Alerj houve uma nova operação da força-tarefa fluminense.

Desta vez, a Furna da Onça prendeu sete outros parlamentares. Entre eles, o próprio Corrêa. Ao chegar preso à sede da Polícia Federal, o deputado manteve sua candidatura. "Quem não deve não teme", disse.

Sem ter sido solto até agora, o deputado do DEM não sabe sequer se terá direito a assumir a vaga como deputado. A decisão está nas mãos de Ceciliano e da Mesa Diretora da Alerj, que deve tomar uma decisão já nesta semana.


Vitória apesar do antipetismo

Petista, André Ceciliano teve que enfrentar a resistência histórica do PSL ao Partido dos Trabalhadores. Coube a um secretário de Witzel fazer a ponte entre os dois grupos antagônicos, conforme o G1 apurou. Publicamente, o PSL refuta qualquer proximidade.

"Não vamos andar de mãos dadas com o PT jamais", garante Rodrigo Amorim (PSL), deputado estadual mais bem votado. N

O governador e o presidente em exercício da Casa, no entanto, se encontraram algumas vezes para conversar sobre as pautas do Estado. E, naturalmente (e reservadamente), sobre a campanha de reeleição.

Prova de que a sorte de Ceciliano parecia inesgotável surgiu em dezembro, quando o próprio petista foi implicado numa polêmica e saiu dela praticamente ileso. Embora uma funcionária de Ceciliano lidere o ranking de maior movimentação no relatório do Coaf, os holofotes se viraram para um dos filhos do presidente da República, Flávio Bolsonaro.

Fabrício Queiroz, assessor de Flávio, movimentou R$ 1,2 milhão e se tornou o protagonista do "caso Coaf".

Líder no ranking Coaf

Três pessoas próximas a Ceciliano, no entanto, movimentaram R$ 45 milhões entre 2011 e 2017. Elisângela Barbieri, atual assessora dele, movimentou R$ 26 milhões, apesar do salário de apenas R$ 7,7 mil.

Em resposta, o deputado negou qualquer irregularidade e colocou seus sigilos fiscal, bancário e telefônico à disposição do órgão. O deputado disse que confia na apuração do Ministério Público e que tudo será esclarecido ao longo do processo.

Se o relatório do Coaf poderia desidratar a candidatura do petista à presidência da Alerj, outra sorte: o único adversário que já havia anunciado candidatura à presidência da Alerj era Márcio Pacheco (PSC). Mas Pacheco também teve funcionários citados no caso Coaf. No gabinete dele, nove servidores movimentaram R$ 25 milhões de forma suspeita. A citação a seu nome acabou deixando Pacheco e Ceciliano em pé de igualdade.

Pesou a favor de Ceciliano o tempo de casa e a experiência à frente da presidência durante a grave crise do Estado. No sábado, dia da votação, ele foi alvo de protestos.

Enquanto membros do MBL comparavam Ceciliano a Picciani, em outra galeria os militantes petistas cantavam a vitória e entoavam "O campeão voltou".


G1/Liberdade FM - Foto - Divulgação

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