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Favoritismo histórico de Biden impõe difícil desafio a Trump
  • Favoritismo histórico de Biden impõe difícil desafio a Trump

A 130 dias das eleições americanas, o democrata Joe Biden consolida uma liderança que impõe um enorme desafio à campanha eleitoral de Donald Trump. A estratégia trumpista, clara e segura até poucos meses atrás, esboroou-se diante do novo coronavírus e dos protestos contra o racismo depois do assassinato de George Floyd em Minneapolis. É cedo para fazer previsões, e Trump, como todos sabem já demonstrou ser capaz de frustrá-las. Mesmo assim, o favoritismo de Biden é raríssimo na história eleitoral americana – e só faz crescer.

Na média das pesquisas mantida pelo site FiveThirtyEight, sua dianteira sobre Trump alcança 9,5 pontos percentuais. Na do RealClearPolitics, 10 pontos. Para ter uma ideia do significado desses números, basta lembrar que a vantagem de Hillary Clinton a esta altura da corrida era de 4 pontos – e chegou à eleição em 3,8, no cálculo do FiveThirtyEight.

Hillary, é bom lembrar, somou 2,1 pontos percentuais a mais que Trump na votação popular, resultado compatível com a margem de erro das pesquisas. Só foi derrotada porque a eleição americana é indireta. Ela foi derrotada no Colégio Eleitoral por perder nos estados decisivos do Meio-Oeste: Michigan, Pensilvânia e Wisconsin. O quadro que se desenha para Biden é bem mais favorável.

Desde Bill Clinton, cuja vantagem sobre George H. Bush (o pai) em 1992 era de 12 pontos, um desafiante não entra na corrida com distância comparável. Hillary e Obama superaram os adversários por no máximo 8 pontos. Biden também é o único candidato a romper a marca dos 50% nas sondagens nacionais desde as reeleições de Richard Nixon e Ronald Reagan. Para um país dividido ao meio, em que a popularidade do presidente ainda resiste acima de 40%, trata-se de feito notável.

Mais notável ainda se considerarmos que Biden lidera por ampla margem naqueles três estados decisivos do Meio-Oeste, cruciais para a estratégia de Trump. O democrata está, segundo o FiveThirtyEight, 8 pontos adiante na Pensilvânia, quase 10 pontos em Michigan e perto de 11 no Wisconsin. Ou, pela média do RealClearPolitics, 6 pontos na Pensilvânia, 9 em Michigan e 8 no Wisconsin.

Não há caminho para Trump vencer no Colégio Eleitoral sem derrotar Biden nesses três estados. Biden, em contrapartida, lidera ainda na Flórida e mesmo em bastiões republicanos, como Arizona ou Carolina do Norte. Até mesmo no Texas, onde os republicanos não perdem desde 1976, ele apareceu empatado em algumas sondagens.

Os motivos para a disparada de Biden são basicamente dois. Primeiro, a reação desastrada de Trump e dos governadores republicanos à pandemia. Em sua coluna no New York Times, o economista Paul Krugman compara a reação dos governadores democratas dos estados do Nordeste à dos países europeus que, apesar da escalada do contágio, conseguiram deter o vírus.

“As notícias realmente ruins têm vindo de estados controlados por republicanos, especialmente Arizona, Flórida e Texas, que correram para a reabertura e, apesar de algumas pausas, não deram meia-volta”, escreve Krugman. “Se o Nordeste parece a Europa, o Sul começa a ficar semelhante ao Brasil.” Não é coincidência que Biden tenha subido tanto justamente nesses três estados.

Enquanto Trump desdenha a ciência, Biden afirmou ontem ser favorável à obrigatoriedade do uso de máscaras em espaços públicos para conter o vírus. As máscaras se tornaram nos últimos dias mais um marcador da identidade ideológica na sociedade americana, com republicanos seguindo o exemplo de Trump e se recusando a usá-las em protestos e manifestações. Nem é preciso dizer o resultado.

Fora Trump, diversos outros integrantes do governo têm distorcido os fatos para tentar pintar o quadro da pandemia em tons mais róseos. “No mesmo dia em que o vice-presidente Mike Pence pediu a senadores que se concentrassem em ‘sinais encorajadores’, os Estados Unidos registraram o maior número de casos num único dia”, diz Amber Philips ao elencar as principais distorções em sua coluna no Washington Post.

A desconexão da realidade não se limita à pandemia. O segundo fator crucial para a alta de Biden foi o assassinato de Floyd. Sua vantagem dobrou depois do crime racista. A aposta de Trump no discurso da “lei e ordem” para agradar o eleitor que vê os protestos como baderna não tem, em 2020, o mesmo apelo que tinha 50 anos atrás.

Os Estados Unidos são hoje um país mais plural, em que o voto de negros e latinos vem crescendo de modo consistente há anos. O movimento demográfico é irresistivelmente favorável aos democratas, na análise dos cientistas políticos Ruy Teixeira e John Halpin.

O trumpismo, em contrapartida, configura o ápice da escolha republicana pelo eleitorado predominantemente branco. “O consenso político já está formado: pretos e pardos não votam nos republicanos”, afirma Clare Malone no FiveThirtyEight. O comparecimento desses grupos, crucial para Biden em novembro, tende a ser impulsionado pela mobilização que sucedeu o assassinato de Floyd.

Ao trazer o racismo para o centro da campanha, o crime do policial Derek Chauvin desviou o foco do tema com que Trump pretendia vencer: a economia. Para complicar, a pandemia tirou o emprego de pelo menos 20 milhões de americanos, provocando mais uma desconexão entre o discurso republicano e a realidade. Ficou bem mais difícil convencer o eleitor de que manter Trump será mesmo melhor para os negócios e o crescimento.

A limitação real de Trump é no fundo cognitiva: a aposta num universo paralelo de propaganda e desinformação. Eleitores costumam adorar candidatos mentirosos, sobretudo quando a mentira satisfaz a instintos profundos e inconfessáveis como o racismo. Mas fatos costumam ser teimosos. Quando a realidade traz mortes e desemprego, e tudo o que o governo sabe fazer é insistir no negacionismo, bem, não é de admirar que a maioria se revolte. Trump sempre pode virar o jogo, como já fez em 2016. Desta vez, contudo, sua vitória seria uma surpresa ainda maior.


G1/Liberdade FM - Foto - Divulgação

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