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Eleições no Chile: Direitista simpatizante de Bolsonaro e esquerdista disputam 2º turno de extremos
  • Eleições no Chile: Direitista simpatizante de Bolsonaro e esquerdista disputam 2º turno de extremos

Os chilenos foram às urnas neste domingo (21/11) escolher o novo presidente do país, mas nenhum dos candidatos obteve a maioria dos votos para declarar vitória.

Com isso, a disputa entra no segundo turno e será decidida no próximo dia 19 de dezembro entre José Antonio Kast, de direita, e o candidato da esquerda, Gabriel Boric.

Com 99,98% da apuração oficial concluída, o advogado Kast, de 55 anos, contava com 27,91% dos votos válidos enquanto o ex-líder estudantil Boric, de 35 anos, com 25,82%.

O eleito assumirá a Presidência no dia 11 de março de 2022.

Em um discurso, o presidente chileno, Sebastián Piñera, disse que foi uma "eleição limpa" e pediu aos dois candidatos que "busquem o caminho da paz, do diálogo e não do populismo e do confronto".

Numa campanha marcada pela extrema polarização, o nome do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) foi várias vezes associado ao de Kast, que chegou a elogiá-lo para depois tentar se desvencilhar de sua imagem na reta final da disputa, diante das críticas de setores políticos chilenos sobre a forma como o brasileiro administrou a pandemia do novo coronavírus.

Após a definição do resultado do primeiro turno, o nome de Bolsonaro voltou a ser citado, na noite de domingo. O presidente do Partido Socialista, Álvaro Elizalde, que apoia Boric, disse que Kast "representa um forte retrocesso", comparando-o com o presidente brasileiro. Elizalde lembrou "da desastrosa administração de Bolsonaro na pandemia".

"Liberdade e comunismo"

Kast, da Frente Social Cristiana, e Boric, da Apruebo Dignidad (Aprovo Dignidade), pertencem a polos políticos e ideológicos opostos.

Em 2017, quando concorreu à presidência pela primeira vez, ele disse, durante sua campanha, que o ex-ditador Augusto Pinochet (1915-2006), se fosse vivo, votaria nele. Boric, por sua vez, costuma citar o ex-presidente socialista Salvador Allende (1908-1973), derrubado por Pinochet, no golpe com bombardeios em 1973, como referência.

No fim da noite de domingo, Kast e Boric trocaram acusações.

Em seu pronunciamento, Kast, da Frente Social Cristiana, disse que o segundo turno da eleição será "entre a liberdade e o comunismo". Ele sugeriu que Boric levaria o país a "seguir os caminhos de Cuba e da Venezuela" e acusou o candidato de esquerda de apoiar atos violentos.

"Boric se reúne com terroristas e assassinos e ele e o Partido Comunista nunca estiveram ao lado dos pobres, dos excluídos", disse ele, ao lado da mulher e de partidários, em meio a gritos de "Kast presidente".

Kast também respaldou os trabalhos das Forças Armadas e das polícias chilenas, voltou a enfatizar que combaterá o tráfico de drogas e a criminalidade em geral e disse que "será através da democracia que se derrubará a esquerda intransigente".

"Esperança vencerá o medo"

Já Boric, rodeado por políticas feministas da sua coalizão e da sua mulher, afirmou que Kast simboliza o "medo".

"Vamos fazer uma cruzada pela esperança e contra o medo em todo o país. A esperança vencerá o medo", disse.

Ele acrescentou que os protestos de 2019, que resultaram na aprovação do plebiscito para a realização da constituinte que redigirá a primeira Constituição em tempos democráticos, não podem ter sido "em vão".

"Não saímos às ruas para que tudo continue na mesma. (...) Não saímos às ruas para que as mulheres tenham o direito de parir em qualquer situação", disse em referência às manifestações.

Boric reforçou ainda que apoia o aborto, em clara oposição a Kast, que o rejeita em qualquer situação.

'Autoritarismo e fascismo'

A corrida eleitoral chilena contava sete presidenciáveis. A única mulher na disputa, Yasna Provoste, da Democracia Cristã (DC), de centro-esquerda, foi uma das primeiras a reconhecer a derrota e a declarar, em seu discurso, que não apoiará o "autoritarismo e o fascismo", ao definir a candidatura de Kast. Ela obteve pouco mais de 11% dos votos totais.

"Kast representa o autoritarismo e o fascismo. Sempre fomos opositores da direita e, principalmente, da extrema direita. A centro-esquerda não estará na disputa no segundo turno. Não se pode ser neutro diante da extrema direita, mas vamos esperar o que Boric dirá", disse.

Já a presidente da DC, Carmen Frei, foi mais clara ao dizer que o partido jamais apoiaria um candidato de extrema direita, mas também "não dará cheque em branco" a Boric.

"Centro encolheu"

A Democracia Cristã foi fundamental na transição da ditadura Pinochet para a democracia e fez parte da coalizão de centro-esquerda Concertación (Coalizão de partidos pela democracia) que governou o Chile com os ex-presidentes Eduardo Frei Ruiz-Tagle (1994-2000), Ricardo Frei (2000-2006) e Michelle Bachelet (2006-2010 e 2014-2018).

No entanto, nesta eleição, sua representação, que já vinha diminuindo, foi pulverizada, como observaram analistas políticos.

"Nesta eleição, não é que os extremos cresceram, mas o centro é que encolheu. Houve uma implosão do centro", diz David Altman, diretor do Instituto de Ciência Política da Universidade Católica (UC), de Santiago.

Um observador da política chilena disse que ao mesmo tempo em que as manifestações de 2019 geraram avanços únicos — como a constituinte com a mesma quantidade de cadeiras para mulheres e homens —, simpatizantes da extrema-direita e da direita se identificaram com Kast, numa clara divisão no país.

"Claramente, Kast conseguiu falar aos setores que já estão também cansados do 'estallido social' (protestos de 2019) e querem outra agenda", disse o analista político Marco Moreno à emissora TVN, de Santiago.

A preocupação com a violência urbana teria levado Kast a ganhar votos também nas classes menos favorecidas enquanto Boric contou com respaldo de jovens e outros com perfis mais progressistas.

Portal Terra/Liberdade FM - Foto - Divulgação

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